terça-feira, 28 de agosto de 2012

Traço de Arquiteto :: Villa Church [Le Corbusier, 1927]

Villa Church - Le Corbusier, 1927 :: Fonte - FLC
Há muito tempo atrás tínhamos uma séria-série chamada Traço de Arquiteto, onde publicávamos aqui desenhos feitos por arquitetos consagrados para os seus projetos... 

O objetivo dessa séria-série era de mostrar que o papel e a caneta (lápis, lapiseira e afins...) são e sempre foram fundamentais para a vida de um Arquiteto e quem sabe com isso estimular o uso dessa ferramenta pelos mais jovens e também por aqueles que são old school, mas que viraram preguiçosos desenhistas de mouse... 

Hoje damos seguimento à essa série com um desenho feito pelo Le Corbusier, uma vista interna do pavilhão de música da Villa Church, um projeto belíssimo e que é menos estudado do que deveria... quem sabe eu não faço um post sobre ele.

Para quem quer outros episódios da séria-série é só dar um clique no link abaixo:

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domingo, 19 de agosto de 2012

Uma Pequena História sobre uma Grande Casa [Villa Savoye :: Poissy]

A clássica composição das fotos do revolucionário Le Corbusier - seus óculos e seu chapéu- no terraço da Savoye

Há algum tempo li um interessante artigo chamado Piuttosto visionario..., escrito por Brian Taylor no inicio dos anos 80 e publicado na revista Ressegna. Ele fala sobre Corbusier e um dos seus clientes, o empresário Henry Frugès, que o contratou para projetar um conjunto de casas de baixo custo em Pessac... e este artigo começa mais ou menos dizendo o seguinte: 

Podemos afirmar tranquilamente que os clientes de Le Corbusier acreditavam nas suas idéias como ele as propunha de forma abstrata. Então eles se deparavam com o produto final e este invariavelmente custava mais do que o previsto e tinha graves problemas construtivos e de manutenção depois de terminado. (Livre tradução feita por mim, que mal e mal domino o idioma de Camões).

Para quem conhece um pouco da história do movimento moderno isso não é nenhuma novidade, eles eram mais do que Arquitetos, eram revolucionários e não há revolução sem vítimas... em muitos casos as vítimas eram os clientes. Isso vale para o Corbu, para o Frank Lloyd, para o Mies, para o Oscar... como diz o Chico, procurando bem todo mundo tem pereba... (só a bailarina que não tem).
Criatura e criador 
E uma das vítimas da revolução foi o casal Pierre e Eugénie Savoye, infelizes proprietários de uma das mais felizes casas modernistas... que segundo descreveu Corbusier o casal era livre de idéias preconcebidas e queriam uma casa de verão que estivesse “na última moda”... e ainda segundo o arquiteto, lhe deram carta branca...

No outono de 1928 o casal Savoye procurou Le Corbusier e pediu uma casa de campo que deveria ter um quarto de hóspedes, garagem (nos anos 20 isso era um luxo) e uma pequena casa para um zelador... o primeiro estudo foi apresentado algumas semanas depois, porém a casa ter um custo de 785 mil francos assustou os clientes, que pensavam em gastar pouco mais da metade deste valor... 

Corbu chamou Pierre Jeanneret, seu primo e sócio, e ambos se dedicaram a enxugar o projeto original... reduziram a área, aumentaram a quantidade de pilares do pilotis para assim aliviar a estrutura, tiraram alguns elementos (o balcão em balanço no terraço da cobertura foi um deles), reorganizaram a planta e o resultado final foi um projeto completamente diferente do primeiro, mas orçado em 350 mil francos... Os clientes adoraram a nova previsão de custo, mas a senhora Savoye gostava mais do primeiro projeto... o resultado disso, de volta à prancheta... 

No inverno de 1929 foi apresentado aos clientes o projeto final, orçado em 560 mil francos e finalizada em 1931 o seu custo efetivo foi de 815 mil... a desculpa (de guri de colégio) do L.C. é que não estavam computados no seu orçamento a construção da casa do zelador, o paisagismo, a construção dos acessos e outros itens importantes que estavam presentes no projeto...
croqui do primeiro estudo para o terraço jardim da Villa Savoye
Fora ter extrapolado o orçamento a casa apresentou diversos problemas construtivos, sendo os mais graves relativos à impermeabilização da laje de cobertura (a cada chuva a casa inundava) e às rachaduras que apareceram nos encontros da estrutura de concreto com as paredes de alvenaria... Corbusier costumava considerar o cliente apenas um meio para realização da sua arquitetura (vide o seu texto “Os olhos que não vêem) e pouco se importou com os problemas de habitabilidade.

A paciência do casal Savoye se esgotou e a relação cliente-arquiteto se tornou inviável, há registro de troca de correspondência hostil até os fins dos anos trinta, então veio a segunda Guerra e salvou o arquiteto de um grande processo judicial, mas não salvou a casa... primeiro foram os nazistas que a ocuparam, depois foram os aliados... quando a guerra acabou pouco restava da casa com fenêtres en longueur...
Tirem as crianças da sala... a decrepitude de um ícone
Ao fim da guerra a madame Savoye, que havia se mudado para uma pequena propriedade rural próxima à Poissy, passa a usar as ruínas da Villa como estábulo e no pátio planta batatas... para os amigos ela dizia que um dia o seu filho mais velho iria restaurar a casa e ali viver com a sua família.

Em 1959 a prefeitura levanta a possibilidade de demolir a casa para ali construir uma escola, isso gera uma série de protestos, liderados pelo próprio Corbusier, e o então ministro da cultura Andrá Malraux (um herói para os modernistas) intervém e salva a casa. Em 1965 ela é finalmente declarada monumento histórico nacional.

Depois disso ela passou por três restaurações: a primeira finalizada em 1967, a segunda ocorrida entre 1985 e 1993 e a última terminada em 1997. Esta foi fortemente criticada, pelos mais puristas, por haver sido reconstruído de forma diferente do original diversos elementos da obra, o que acabou mascarando os problemas construtivos e apagando da história as gambiarras que foram feitas nos anos vinte para materializar o minimalismo construtivo tão sonhado pelos modernistas, porém tão distante do conhecimento construtivo da época... 
Visitando a Villa em um clássico outono europeu.
Apenas na minha terceira visita à Cidade Luz eu tomei vergonha na cara e fui até a Villa de Poissy, que é aberta à visitação e recebe alguns milhares de visitantes por ano, mas isso vou deixar para um próximo texto... 

As imagens em preto e branco que ilustram essa postagem foram retiradas do livro Le Corbusier Le Grand, ed. Phaidon, a imagem colorida é uma das minhas figurinhas de viagem.

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sábado, 28 de julho de 2012

Mudando a paisagem...


Não lembro se já contei para vocês, mas meu pai é engenheiro civil. Formado há 45 anos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não escondo a grande admiração que tenho por ele, não apenas como profissional, pois além de ser um baita engenheiro o Gordo é um pai sensacional e uma pessoa incrível... e desde de criança eu ouço ele me citar um trecho da mais famosa música do Geraldo Vandré:

“...Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer...”
Há alguns anos atrás, um pouco desgostoso com a carreira de arquiteto-projetista eu sai da minha zona de conforto e deixei de esperar acontecer, me tornei um micro-incorporador e assim passei a ter controle sobre todo o processo. Comecei construindo um conjunto de quatro sobrados geminados em Caxias do Sul... destes eu passei à um segundo conjunto de casas geminadas, dessa vez três unidades triplex... hoje estou executando as obras de um pequeno edifício de apartamentos e já tenho na prancheta a minha próxima incorporação. 

Em todos os casos eu escolhi o terreno, fiz o estudo de viabilidade financeira, desenvolvi o projeto arquitetônico e parte dos projetos complementares, quantifiquei os materiais e fiz os orçamentos, contratei a mão de obra, executei a obra... e pra finalizar ainda fiz as vendas... devagarinho vou dominando a arte de bater o escanteio, correr para a área e cabecear... 
Eu não gosto muito de escrever sobre a minha produção, me sinto como aquele colega que escreveu o Guia de Arquitetura Contemporânea e incluiu mais de uma de suas próprias obras (de linguagem nada contemporânea)... mas sei que vários estudantes de arquitetura chegam até este blog e acho que compartilhar a minha experiência pode ser um jeito de mostrar que o arquiteto pode (e talvez deva) fazer a hora e ser protagonista na mudança da paisagem de nossas cidades.  
A minha primeira experiência eu relatei aqui: http://arquis.blogspot.com.br/2009/05/nao-eu-nao-morri.html e agora vou falar um pouco sobre a minha segunda experiência (ou seria experimentação?)... 

Enquanto eu tocava as obras das primeiras casas eu via logo cedo que os primeiros raios de sol iam direto à uma encosta não muito longe de onde eu estava construindo... uma das partes mais altas do bairro... terrenos com topografia difícil e super valorizados pelos privilegiados proprietários... 
Depois de um tempo de procura e negociações consegui um terreno com uma das melhores vistas e insolação... orientação leste-oeste, com aproximadamente 12 x 27, um desnível de 9 metros de frente à fundos e 2 metros de um lado ao outro... a condição para o proprietário do terreno negociá-lo é que mediante ao pagamento de uma diferença ele ficaria com um dos imóveis e este deveria ter dois dormitórios... 

Eu já havia definido que seguiria com casas geminadas, ainda estava embriagado pelas minhas recentes visitas aos novos bairros da periferia de Amsterdam onde os terrenos são super estreitos e mesmo assim aproveitados com uma arquitetura de primeiríssima linha... fora isso o meu capital de giro não permitia construções muito maiores (tenho orgulho de ter recebido, através meus pais, uma excelente educação e à partir dela ser um self made man)...
Pela largura do terreno o máximo que eu conseguiria seriam 3 unidades, uma já estava definida -seria de dois dormitórios- as outras duas eu defini que seriam de três dormitórios para assim maximizar o VGV (Valor Geral de Vendas)... com isso somei às condicionantes do terreno a busca por uma unidade arquitetônica mesmo com unidades de diferentes tamanhos.

Além disso o terreno tinha uma característica interessante, estava localizado em uma rua sem saída e devido à topografia a fachada dos fundos seria vista ad aeternum por quase todo o bairro... ou seja, a fachada dos fundos se tornaria a principal e as casas deveriam se abrir para ela para aproveitar a vista e o sol da manhã.
Para fechar com chave de ouro havia o condicionante mais duro de todos: resolver a equação custo x arquitetura... os detalhes que compõe a boa arquitetura nem sempre custam pouco e a obra em um terreno com topografia tão acidentada já não seria algo barato... e como eu não sou uma organização sem fins lucrativos eu deveria ter sempre em mente que LUCRO = PREÇO DE VENDA - CUSTO... o preço de venda é definido pelo mercado, logo o único elemento sobre o qual eu tenho controle é o custo.

O resultado foi uma planta de três pavimentos, na qual o nível inferior abriga a garagem, a área de churrasqueira, a lavanderia, um terraço que acessa o pátio e um lavabo; no nível térreo cozinha, sala de estar/jantar; no nível superior os dormitórios e os banheiros. Respeitando a topografia as casas foram escalonadas ao decorrer do terreno e há uma escada no fundo de cada uma delas que dá o acesso do nível inferior ao pátio.
A solução volumétrica é basicamente três volumes em balanço que estão emborcados em um volume principal... sobre este volume principal três reservatórios individuais, sob este volume principal uma base revestida com salpique, que remete à um acabamento típico da arquitetura vernacular da região. 

O resultado final me agradou bastante, claro que dentre as experiências tem aquelas que não serão repetidas, mas no geral esse projeto me parece um bom exemplo de como um arquiteto pode ser feliz por conta própria.
As fotos eu que tenho não são as melhores, várias delas são do período de obras e todas elas foram tiradas com o meu celular, mas assim que for possível providenciarei uma boa sessão fotográfica.