quarta-feira, 6 de junho de 2007

Céu de Brasília, Traço do Arquiteto...


A primeira vez que visitei Brasília, tinha 12 anos. Confesso que não entendi a cidade: Faltavam prédios, tudo era longe... mas achei interessante: era diferente de todas as (poucas) cidades que conhecia. Quando da segunda, já aos 18 anos e recém entrado na faculdade de arquitetura, tive uma outra visão da capital, embora o envolvimento com um evento etílico-acadêmico na UNB tenha minado um pouco a minha percepção de toda aquela aula de modernismo ao ar livre e em tempo real.
O ano era 1994 e, desde lá, sei que muita coisa mudou no planalto central... o metrô está pronto (embora os brasilienses só reclamem dele), a densificação e a especulação imobiliária passaram a ameaçar o patrimônio da humanidade a ponto de a pressão pela moradia de classe média fazer surgir uma "Brasília alternativa", Águas Claras, a meio caminho entre Taguatinga e o Plano Piloto, densa e verticalizada, misto de Barra da Tijuca com Morumbi e Balneário Camboriú, coleção de exemplares de arquitetura de qualidade duvidosa (mal que assola todas as nossas metrópoles) e que, ao rés do chão, parece uma cidade inacabada. Lá, em matéria de índices construtivos, me contam que tudo é possível. É o modernismo às avessas.
Além disso, Niemeyer plantou mais algumas de suas excentricidades, amadas por um e odiadas por outros, na forma de novas sedes dos tribunais, projetadas e construídas a peso de ouro, só fazendo com isso alimentar as críticas ("está senil", chegaram a dizer... quanta ignorância).
Agora, minha 3a. edição, revista e ampliada, terá mais uma oportunidade de aprender as lições (de como fazer e de como não fazer) ensinadas pela capital. Além de servir de guia aos meus acompanhantes, estreantes no centro do poder. Há de ser divertido. Costuma-se dizer que Brasília ou se ama ou se odeia. Com base nas experiências anteriores, Algo me diz que me aproximo mais do primeiro grupo.

terça-feira, 5 de junho de 2007

De Volta Para o Futuro

Faculdade de Arte e Arquitetura de Yale

O Trabalho de Paul Rudolph me foi introduzido pelo Professor Silvio Rocha, como referência de pesquisa para um projeto que desenvolvia em um ateliê da faculdade. Nossos assessoramentos eram altamente dispersivos (projetamos até um carro popular de 6 lugares em um deles, ao tentar resolver uma cozinha), embora inegavelmente produtivos, em termos de cultura arquitetônica. O fato é que Rudolph foi um dos mais inventivos arquitetos norte-americanos do século XX; sua obra, onde fez farto uso com muita expressividade de um material inusitado na terra do Tio Sam - o concreto, em todas as formas e texturas possíveis - encerra uma complexidade interessante, que, ao mesmo tempo que se afirmava como uma obra de vanguarda, futurista até, e negava a arquitetura tradicional de arcos e colunatas, contrastava com a simplicidade modernista da qual era contemporânea. Embora sua obra mostre que ele bebeu da fonte de Mies Van der Rohe e Le Corbusier, Rudolph soube compilar essa bagagem com um resultado que soava bastante americano.

Artigo muito interessante do New York Times, de março deste ano, relata uma "viagem temática" pela obra de Paul Rudolph (falecido em 1997), em grande parte concentrada no nordeste dos Estados Unidos (ele teve também uma produção tardia importante no oriente, em Singapura e Hong Kong, quando os construtores norte-americanos já o rejeitavam), que não só fala dos exemplares mais significativos de sua produção como também relata sobre seu estado atual (as que não foram demolidas ou desvirtuadas), inclusive conversando com ocupantes e residentes das edificações.

Há passagens interessantes, algumas até divertidas, como a do funcionário da prefeitura de Goshen, Nova York, que conta que o inusitado prédio projetado por Rudolph, um emaranhado de caixas de concreto sobrepostas, tem 87 lajes de cobertura - e que TODAS vazam. Destaque também para a bizarra história do entregador de comida chinesa que, em 2005, ficou 3 dias perdido em meio ao emaranhado de corredores do instigante conjunto residencial Tracey Towers, em Nova York, cuja planta-baixa onde ângulos retos são raros confunde até mesmo moradores antigos, o que certamente dificultou o resgate.

Vá lá e exercite o seu inglês... não dói:

http://travel.nytimes.com/2007/03/23/travel/escapes/23rudolph.html?pagewanted=1

Rua das Tentações

Os caretões Sam e Alex chegam à casa da mãe Joana: Tudo pode acontecer.
Mais uma boa pedida para aquela pausa nas plantas baixas, cortes elevações e perspectivas: Quase sem querer, topei com "Laurel Canyon", filme independente de 2002, da ainda desconhecida diretora e roteirista americana Lisa Chlodenko, numa dessas madrugadas zapeando pela TV a cabo. É um filme que está em várias locadoras (eu mesmo já vi na minha, mas nunca pensei em pegar).
"Laurel Canyon" mostra uma ironia e desprendimento normalmente ausentes no cinemão americano... E é uma história muito bem contada: Sam, um médico psiquiatra recém-formado em Harvard, quadrado e caretão (Christian Bale, competente), muda-se para L.A. a fim de estagiar em um hospital local, levando consigo Alex, sua retraída e tímida noiva (Kate Beckinsale, espetacularmente bela), de família puritana e tradicional, que busca tranqüilidade para terminar uma complexa dissertação de mestrado em genética.
Chegando à casa em que ficariam e que, supostamente, estaria desocupada, na chique e tortuosa Laurel Canyon Boulevard (uma rua que existe mesmo, serpenteia morro acima proporcionando paisagens espetaculares), deparam com Jane (Frances McDormand, uma das melhores atrizes americanas da atualidade, impecável como sempre), a permissiva e porra-louca mãe de Sam, uma conceituada produtora musical que vive como se estivesse nos anos 70, às voltas com a finalização (em um estúdio localizado na casa, diga-se de passagem) do álbum de uma banda moderninha, com cujo vocalista, bem mais jovem do que ela, adora trocar amassos, fumar um e beber até cair.
A partir daí, o choque de realidade que desaba sobre Sam e Alex provoca uma espiral de acontecimentos com desfechos imprevisíveis... Alex, que passa os dias na casa, relegada à solidão em um mundo diametralmente oposto ao seu, busca estímulo para continuar seu extenuante trabalho enquanto começa a simpatizar com a sogra e a se interessar cada vez mais por aquele clima "sex, drugs & rock´n roll" que permeia o ambiente, passando cada vez mais horas no estúdio de gravação e menos ao notebook... Sam, enquanto isso, alheio ao isolamento da noiva, entra em conflito com sua mãe, a qual desdenha de sua caretice, e aproxima-se de Sara, uma residente israelense de seu hospital (Natascha McEllhone, a enigmática terrorista de "Ronin").
Enfim, Um filme que vale a pena, e que fala de realidades conflitantes e, principalmente, sobre como podem ser frágeis os laços que unem as pessoas, seja lá qual for seu grau de relacionamento, e do quanto é preciso dar atenção, sempre, aos que nos cercam, a fim de manter o vigor dessas ligações. Olho vivo na camiseta do AC DC, e em quantos corpos ela vestirá ao longo da película.
Mas que diabos isso tem a ver com arquitetura? Nada, oras... mas é preciso viver, para além do CAD e da prancheta. Veja o filme, tome uma cerveja, relaxe, namore...
Ah, mas essa casa, em Laurel Canyon, é bem legal:

Projeto do escritório Orenj, de Los Angeles. Mais informações e, de quebra, dica de outro blog bem legal, que fala de arquitetura e afins:

http://www.tropolism.com/2007/01/tropolism_buildings_the_laurel.php