segunda-feira, 5 de setembro de 2011

VitraHaus :: Herzog & de Meuron

Uma das "salas" do showroom da Vitra
Não existe milagre, para fazer boa arquitetura é necessário muito estudo, paixão e transpiração... e o estudo que eu falo não é apenas o da formação universitária, mas também o que deve seguir durante toda a vida profissional... a cada novo projeto o bom profissional deve trabalhar com mais de uma possibilidade, deve realizar a leitura correta das condicionantes e do programa de necessidades e não deve ter vergonha de realizar estudos de caso. 
Em 2002, na tentativa de fazer um bom trabalho de graduação eu me dediquei ao estudo um projeto realizado pelos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, que por coincidência um ano antes haviam ganho o Pritzker...  o projeto que eu usei como estudo de caso era a vinícola Dominus, localizada na Califórnia. Um exemplo de arquitetura minimalista com uma força visual impressionante... talvez devido à forma como mimetiza com a paisagem, talvez pelo uso inusitado de gabiões como pele da edificação... quem ainda não conhece esse projeto, eu recomendo muito: http://www.archiplanet.org/buildings/Dominus_Winery.html
Passados quase dez anos eu estava reencontrando a arquitetura dos suíços na cidadezinha de Weil-am-Rhein, interior da Alemanha, mais especificamente no Campus da Vitra Design, onde eles foram responsáveis por um novo prédio do complexo, o VitraHaus.
Área com amostras dos acabamentos possíveis e computadores para simular o resultado final

Como eu já contei em outra postagem a Vitra é uma fábrica de móveis e utensílios domésticos que possúi a licença de produção do design de monstros como: o casal Eames, Mies, Panton, Corbusier... e por aí vai... e junto à sede da empresa em Weil-am-Rhein foi construído um grande showroom dos seus produtos, o VitraHaus, com o objetivo de receber a visita não só dos seus consumidores diretos, mas também para receber pessoas que querem conhecer mais sobre a história do design ou que simplesmente gostam de passear em uma grande loja de mobiliário de primeira qualidade... coisa que, guardadas as devidas proporções, acontece aqui em Porto Alegre com a Tok Stok... (repito, guardadas as devidas proporções...)
Escada caracol, uma delas
Para resolver o que foi pedido pelo cliente os arquitetos suíços entenderam que o correto não seria apresentar os produtos em um ambiente sem identidade, mas sim apresentá-los dentro do seu contexto de uso, ou seja, dentro de uma casa... Como a linha de produtos da Vitra é muito extensa para colocar dentro de apenas uma casa, eles resolveram isso projetando nada menos do que doze (!) casas que vezes estão contíguas  e vezes estão empilhadas, seguindo uma improvável lógica geométrica nos cinco andares do prédio.
A solução espacial é brilhante, ainda mais e levarmos em conta a complexidade que tem por trás dela e que não é percebida aos olhos de um leigo... começando a visitação pelo último andar (seguindo uma lógica promenade architecturale) vai se passando por ambientes com alturas variadas... escadas em caracol... planos inclinados... e a maneira como os arquitetos enquadraram a paisagem é genial, pois se passamos de uma “casa” para outra esperamos que a paisagem também mude e é exatamente isso que acontece, hora se visualiza a rodovia... hora a vista são os outros prédios do campus... hora é a idílica paisagem dos morros que circundam a região... 
sala com mobiliário para os piás...
Complementando o programa ainda há no térreo: uma loja de pequenos acessórios e utensílios, uma cafeteria e algumas salas de reunião/negócios.
Na minha opinião o resultado é brilhante. Talvez a volumetria até possa ser questionada por alguém que ande aborrecido e mal amado... mas a qualidade espacial é digna do mobiliário ali exposto, ou seja, é inquestionável.... assim como é inquestionável que a Vitra atingiu o seu objetivo com a VitraHaus, vocês podem ver pelas fotos que havia dezenas de pessoas visitando e usando os espaços... os alemães construíram bem mais que um showroom, construíram um equipamento urbano. 

Em breve faço uma postagem estilo álbum de figurinhas... tenho muitas imagens desta obra e acho que vale a pena compartilhar.

P.S.: Estive lá em um chuvoso dia de outono, mas tenho certeza que no verão o pessoal de lá usa os gramados do Campus como se fosse um parque... certo que é lá que se toma o chimarrão das tardes de domingo.
Além de móveis, luminárias...
Link para a primeira postagem do Campus da Vitra Design: http://arquis.blogspot.com/2011/07/vitra-campus-weil-am-rhein.html
Link para o escritório dos suíços Herzog & de Meuron: http://www.herzogdemeuron.com/
Link para ótima matéria realizada pelo David Basulto para o archdaily, onde se podem ver os complexo diagramas projetuais da VitraHaus: http://www.archdaily.com/50533/vitrahaus-herzog-de-meuron/

Uma externa para quem não viu o outro post, meu primeiro contato visual depois de descer do ônibus que me trouxe desde Basel.

sábado, 27 de agosto de 2011

O Genius Loci e o Jênio Assadi...

Tem uma porção de filmes de mulherzinha que eu gosto muito... um deles é A Casa do Lago, um filme tri bem feito onde Keanu Reeves interpreta um arquiteto idealista cujo o irmão e pai também são arquitetos... o irmão é um profissional que se rende ao mercado e o pai é um famoso arquiteto que sempre foi mais arquiteto do que pai... 
Em determinado momento do filme o personagem do Keanu Reeves vai visitar o pai no hospital e este lhe mostra a imagem do projeto de um museu e pergunta o que ele acha... depois de uma rápida olhada o filho diz que lhe parece bom... então o pai, com um olhar de reprovação, lhe questiona como ele pode ter achado bom se ele nem sabia onde seria construído o prédio.... se ele não sabia qual a orientação solar do terreno, nem o clima e  muito menos as cores da região... 
A lição que ele queria passar é que se o projeto não estiver adequado ao espírito do lugar - ao genius loci, e as condicionantes que este apresenta, ele pode ser bonito sem necessariamente ser bom (assim como algumas pessoas)...
O conceito de genius loci vem desde a arquitetura clássica e foi revisto por vários arquitetos e autores contemporâneos.... Heidegger, Norberg-Schulz, Aldo Rossi... cada um à sua maneira reconheceu que o lugar é um espaço que possui caráter próprio e que o bom arquiteto é aquele que reconhece as características distintivas do lugar e interage com estas de uma forma correta e adequada... e não se tratam apenas das características geográficas, mas também das características culturais e sociológicas.... é fácil entender a importância do lugar para a arquitetura... um ótimo arranha-céu nova iorquino é um péssimo trambolho se for construído na beira da praia em Fernando de Noronha... acho que até a Sophia, minha afilhada lindona, entende isso... mesmo com três anos e meio de idade.
Porém o que até uma criança entende alguns arquitetos ignoram completamente... nossas cidades estão repletas de fachadas com má orientação climática.... de obras mal inseridas no terreno.... e se eu for falar na falta de linguagem arquitetônica adequada e ou na falta de respeito pela cultura do local este texto não vai mais terminar e eu ainda quero escrever sobre o jênio Assadi... 
Há algumas semanas eu tenho experimentado usar o Twitter... e uma das pessoas que eu seguia era o chileno Felipe Assadi (@felipeassadi)... para quem não conhece ele é um jovem e multi-premiado arquiteto (clique aqui e conheça o seu trabalho) que tem talento de sobra. A produção dele é realmente muito, mas muito boa... e desde 1997 ele também leciona arquitetura....  
E não é que este baita arquiteto, que serve de exemplo para muitos jovens estudantes e profissionais, resolveu ter uma jenial idéia???  Vejam que maravilha: quando ele chegar ao número de dez mil seguidores no twitter ele vai sortear o projeto de uma casa de 120 m2, com plantas, maquete e especificações... sendo que aos sete mil ele mostrara os croquis, aos oito mil ele publicara uma renderização, aos nove mil as fotos da maquete física e aos dez mil ele sorteara o que ele batizou de tweethouse... o projeto de uma casa que será feito sem saber em que lugar do mundo será construído, ignorando as condições naturais do terreno, fazendo pouco caso da cultura do local e desconsiderando as necessidades do ganhador do tal projeto... ou seja, ele vai sortear uns desenhos e não um projeto... perante essa idéia jenial eu não resisti e com meu espanhol, aprendido em ciudad del leste, lhe perguntei se o genius loci não era importante para a arquitetura dele... ele respondeu que o genius loci estava de folga... e depois disso, ofendido, me bloqueou. Deve ser difícil a vida de jênio... 

P.S.: Antes que alguém duvide que sou realmente alfabetizado, escrever JÊNIO é uma HIRONIA.... 

P.P.S.: Só sei usar o twitter para acompanhar notícias de futebol, mas se alguém quiser me seguir e me ensinar a usar essa encrenca: @lucianobasso

P.P.P.S.: Entendo que a tweethouse do Assadi seja uma diversão para ele... vocês já devem ter percebido que senso de humor não costuma me faltar, mas acho que teriam formas mais adequadas dele brincar.

P.P.P.P.S.: Há muito tempo o sumido Gabriel escreveu sobre filmes onde os protagonistas são arquitetos, entre eles: A Casa do Lago... vale a (re)leitura: http://arquis.blogspot.com/2008/08/architects-are-nice-guys.html

Ilustrando a postagem uma foto que tirei no Ensanche de Vallecas, em Madri... é o Vallecas 51, do Somos.Arquitetos

sábado, 16 de julho de 2011

Vitra Campus :: Weil-am-Rhein

Vista de Basel desde alguma ponte sobre o Reno, as torres da catedral e a roda gigante
Era novembro... manhã de domingo... 7 e pico da madrugada (no meu fuso particular antes das 9 é madrugada) e lá estava eu e minha mochila rumando à Gare du Nord  para mais uma vez me despedir de Paris... dessa vez o destino era uma cidadezinha localizada no noroeste da Suiça chamada Basileia ou em alemão, Basel.
Fazendo fronteira tanto com a França quanto com a Alemanha, Basel é uma cidade pra lá de simpática... cortada pelo Reno e importante pólo da indústria farmacêutica (lá estão as sedes da Novartis, La Roche...) ela é a terceira maior cidade da Suiça e se tornou meu destino por estar próxima das cidades de Weil-am-Rhein, na Alemanha e de Ronchamp, na França...
Em Weil-am-Rhein eu queria visitar o Campus da Vitra Design... e em Ronchamp o objetivo era a capela Notre Dame du Haut... até a cidadezinha alemã eu cheguei... Ronchamp virou motivo para eu voltar mais uma vez à Europa.
Panorâmica do conjunto, foto tirada de dentro da Vitra Haus
Para quem não sabe a Vitra é uma fábrica de móveis e utensílios fundada em 1950 e que hoje além de produzir móveis de designers contemporâneos como Gehry, Hadid, Foster, entre outros... também produz com licenciamento oficial peças desenhadas por Verner Panton, Jean Prouvé, Le Corbusier, Eero Saarinen, casal Eames.... se percebe que os seus produtos tem as raízes, o tronco e os galhos na modernidade. 
Endereço do Vitra Campus
Com fábricas também nos Estados Unidos, China e Japão e com um presidente que disse que: a sustentabilidade é como a moral: tem que ser vivida sem falar muito à respeito... o Campus da Vitra em Weil-am-Rhein é um parque de diversões para arquitetos. 
Em 1981 um incêndio consumiu a planta existente e com o objetivo dos novos prédios possuírem uma arquitetura com qualidade condizente ao desenho dos móveis por eles produzidos foi contratado o arquiteto inglês Nicholas Grimshaw para fazer o projeto da nova fábrica... 
VitraHaus, projeto dos suíços Herzog e de Meuron
Após a construção do prédio do Grimshaw foram contratados outros starchitects para projetar os novos prédios... Gehry fez o museu em 1989.... em 1993 foi a vez da Zaha Hadid fazer uma pequena estação de bombeiros e para o Tadao Ando fazer um centro de conferências.... depois veio uma nova planta fabril projetada pelo Siza... também foi reproduzido um pequeno posto de abastecimento projetado por Jean Prouvé em 1953.... e até foi importada de Detroit uma geodésia do Buckminster Fuller... no ano que vem (2012) será inaugurada mais um centro de produção, dessa vez projeto da Sejima/SANAA... e no ano passado foi inaugurado o show room deles no campus.... a VitraHaus, lindo projeto do Herzog e de Meuron, seus vizinhos da Basiléia...
Para chegar lá peguei o ônibus 55 na Claraplatz, em Basel, e depois de alguns minutos já estava na Alemanha e de longe avistava o Vitra Campus na beira da rodovia... logo descendo do ônibus já se percebe que os abrigos são estilosos.... e que não se chegou a qualquer endereço, mas sim à Charles Eames Straße.... 
Vitra Design Museum, projeto do Gehry
Infelizmente não cheguei à tempo de fazer uma visita guiada à todo o Campus... não pude conhecer a estação de bombeiros e nem andar dentro das plantas de produção, mas pude visitar o Vitra Museum, que abrigava uma bela exposição do Frak Gehry, pude circundar o prédio do Tadao, visitar uma exposição sobre arquitetura chinesa na geodésia e passar um par de horas na VitraHaus.
O que mais causa impacto é o museu do Gehry e o showroom da dupla Herzog e de Meuron, porém a situação do conjunto também é muito interessante... na beira de uma rodovia, sem vizinhos muito próximos... com campos e montes cobertos de verde em frente... essa postagem da uma visão geral do Campus e essa se detém na VitraHaus: http://arquis.blogspot.com/2011/09/vitrahaus-herzog-de-meuron-weil-am.html
Tadao também deixou sua marca por lá (o papagaio de pirata é amigo argentino Nicolas Bailleres)
Mais informações no site da Vitra:  www.vitra.com
P.S.: Não andava com vontade de escrever sobre arquitetura construída, mas às vezes a gente tem tanta coisa para dizer que acabamos ficando em silêncio... na verdade queria falar sobre a falta de qualidade do programa Minha Casa Minha Vida.... também pensei na falta do uso das lapiseiras nas faculdades e a conseqüência que isso trás... ou então fazer um “momento pipoca” sobre um par de documentários que vi recentemente.... quem sabe escrever sobre empatia ou sobre a falta dela... enfim... obras arquitetônicas eram a última opção, mas tudo bem... se eu falo muito sobre arquitetura é para compensar o tanto de gente que fala pouco.
P.P.S.: Sei que as fotos ficaram ruins... câmera de bolso e tempo ruim não são uma boa combinação, mas quem quiser fazer uso delas pode ficar tri à vontade e se citar a fonte fico faceiro...