domingo, 29 de janeiro de 2012

Os Três Porquinhos

No tempo do era uma vez havia três porquinhos que moravam juntos, Cicero, Heitor e Gerson... um dia eles resolveram que cada um deveria ter a sua casa. Pertinho de onde eles moravam havia um condomínio de casas meio ripongas... tudo muito ecológico e sustentável... Cícero alugou ali uma casinha feita de bambu e sisal.... Heitor alugou a casa ao lado, toda construída com madeira de reflorestamento... já Gerson não quis saber daquelas casinhas e alugou uma casa de tijolos e concreto armado próxima dali... ele era muito esperto... 


No verão passou por ali um lobo faminto e este logo viu Cícero tomando sol no seu quintal... o lobo viu ali o seu almoço e saiu correndo para tentar pegar o porquinho, mas esse conseguiu escapar para dentro de casa... então o lobo soprou... soprou... e pouco antes da casa de bambu desmoronar Cícero saiu pela porta dos fundos e foi para a casa do Heitor... 
O lobo foi atrás e bateu na porta, mas Cícero e Heitor eram porcos e não jumentos, então eles não abriram... o lobo novamente soprou... soprou... e a casa de madeira também caiu... no meio da bagunça os dois porquinhos correram e foram até a casa do Gerson...  
Novamente o lobo saiu correndo atrás dos porquinhos e chegando na casa ele gritou: “abram a porta e me deixem matar a fome... só preciso comer um de vocês... se vocês não abrirem eu vou soprar, soprar e derrubar essa casa também...”. 

Cicero e Heitor estavam apavorados, mas Gerson tentou tranquilizar os amigos: “Vocês podem ficar tranquilos, a minha casa é de material e lobo nenhum vai derrubá-la... ainda mais depois da reforma que eu fiz...”. Gerson era muito esperto... 
Eles não deram bola para o lobo, então este soprou... soprou... e a casa veio abaixo, soterrando os três porquinhos e saciando a fome do lobo.... Gerson era muito esperto, tão esperto que não contratou um Arquiteto ou um engenheiro para fazer a tal reforma.
FIM.
Foto de Wilton Junior/AE
Com porquinhos essa história já não tem a menor graça, com pessoas ela se transforma em uma tragédia como a que aconteceu essa última semana no centro do Rio de Janeiro. Um edifício de vinte pisos veio abaixo e derrubou junto dois prédios vizinhos... 
Ainda não se tem certeza sobre a causa disso, mas a hipótese mais forte até o momento é que uma reforma feita sem projeto ou responsável técnico (Arquiteto ou engenheiro civil), em um dos pavimentos do prédio, desestabilizou a estrutura do prédio e ocasionou esse trágico acidente. O número de mortos deve passar de vinte, os prédios eram de uso predominantemente comercial e o desmoronamento ocorreu à noite... senão o número de vítimas seria ainda maior.
Agora vêm as perguntas, quem não conhece alguém que reformou ou construiu algo sem contratar um profissional habilitado para projetar e acompanhar a obra? Como as prefeituras fiscalizam isso? Qual a efetiva punição para quem é flagrado em uma situação, de exercício ilegal da profissão, como essa? O que os conselhos profissionais estão fazendo para mudar isso?

Talvez tenhamos sorte que tragédias como essa não ocorram mais seguido... afinal, algumas pessoas são muito espertas... 
Link para reportagem sobre a tragédia ocorrida no centro do Rio:

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Shofar Center - Daniel Libeskind em Porto Alegre (ou então, Quem é melhor do que o arquiteto gaúcho?)

Meu avô acordava diariamente às 5 e pouco da manhã, cevava um mate, lia a ZêAgá e só depois o dia dele podia começar (para quem não é gaúcho, cevar um mate = preparar um chimarrão; ZêAgá = Jornal Zero Hora, o principal do Rio Grande do Sul). Eu tive o privilégio de compartilhar esses momentos algumas vezes e volta e meia repito o ritual, é um jeito de alimentar certas lembranças que são importantes para mim...  

E foi em uma dessas madrugadas (precisamente 12 de novembro de 2011) que abri a ZêAgá e na capa do caderno Cultura haviam três croquis e o seguinte texto: “Responsável pelo projeto da Torre da Liberdade, a ser erguido no lugar das Torres Gêmeas, o arquiteto polonês-americano Daniel Libeskind desenha (sic) centro cultural para Porto Alegre”.
Na página central encontrei uma matéria ricamente ilustrada explicando que no dia 21 daquele mês seria apresentado o projeto do Shofar Center, um centro comunitário e cultural vinculado à organização judaíca-ortodoxa Beit Lubavitch assinado pelo famoso arquiteto do Museu Judaico de Berlim...
Um prédio de quatro pisos e muita simbologia... as aberturas externas remetem ao alfabeto hebraico e no interior há um átrio com formas sinuosas que lembram um shofar, instrumento de sopro -feito com um chifre de carneiro- usado em ritos religiosos... esse átrio une todos os pavimentos e sob uma cobertura de vidro se abre ao céu... 
A obra deverá abrigar auditório, ateliês, biblioteca, museu e um centro de convenção... no terraço haverá um belo jardim coberto por uma estrutura cujo as linhas formam estrelas de David estilizadas, muito parecida com a cobertura da ampliação do Museu de Berlim... 
Quando perguntado se nesse projeto havia algo especial entre tudo que ele já havia feito, Libeskind respondeu: “Oh, muito especial. Acho que nunca fiz um projeto como este. Eu diria que, no núcleo do projeto, há uma luz que não como a de qualquer outro prédio que fiz (...). Este não é um prédio que eu tenha feito antes. Não é um museu, não é apenas sobre história, sobre memória, é sobre abraçar a alegria que esta construção trará.”
Buenas, creio que a maioria de vocês deve estar pensando “UAU... Porto Alegre já tem uma obra do Siza e agora vai ter uma obra do Libeskind... os Arquitetos gaúchos devem estar faceiros com isso...” pois é, mas não foi bem assim... de forma discreta houve um burburinho questionando a escolha do profissional, questionando a qualidade do projeto e também sugerindo que projetos como esse sempre fossem fruto de concurso público...  Esse tipo de questionamento já havia ocorrido na época do projeto realizado pelo Alvaro Siza para a Fundação Iberê-Camargo... 
É interessante, talvez por Porto Alegre estar longe demais das capitais alguns arquitetos gaúchos pensem que não há outras arquiteturas (e nem outros arquitetos) e ao invés de aproveitarem a oportunidade de aprendizado e de crescimento e ficarem gratos com o espaço que a Arquitetura está tomando na cidade... eles preferem ficar resmungando feito guri de colégio e de forma contraditória enchem as nossas ruas com uma arquitetura cada dia mais medíocre.
Para quem quer mais informações: 
http://www.youtube.com/watch?v=2L4fFX5-_Zk - vídeo de apresentação do projeto.
http://daniel-libeskind.com/ - site do arquiteto.
http://www.chabadpoa.org/templates/articlecco_cdo/aid/1699870/jewish/Shofar-Center.htm - site da organização judaíca-ortodoxa Beit Lubavitch, com várias informações sobre o Shofar Center-Porto Alegre.

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P.P.S.: Prometo que logo sigo com a séria-série sobre o TFG... e costumo ser um guri de palavra, às vezes sou distraído, talvez esquecido... mas sempre de palavra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Para ser Arquiteto é preciso saber desenhar? (ou então, Vou precisar de aspirina para a ponta dos dedos)

Steven Holl; Cactus Towers, Live Work Lofts
“Aqui existiu vida. Nela prevaleceu o sofrimento e predominou a injustiça. Mas também conhecemos o amor e até fomos capazes de imaginar a felicidade”
(Gabriel García Márquez, em Cataclismo de Damocles)
Há alguns dias 2012 deu as caras e confesso que eu já estava ansioso por isso... queria muito que 2011 terminasse, PRECISAVA que 2011 terminasse... foi um ano complicado demais pra mim... mas, assim como o Gabo, eu nunca deixei de imaginar a felicidade e por isso sei que 2012 vai ser sensacional e deixo meus votos mais sinceros que este seja um baita ano para todos os amigos que há tempos acompanham este blog e também para aqueles que estão aqui de passagem... 
Chega de milongas e vamos ao que interessa, o primeiro texto desse ano novo...
Várias pessoas chegam ao blog perguntando se é preciso saber desenhar bem para poder estudar Arquitetura ou para ser um bom Arquiteto... há quase três anos eu já me manifestei sobre isso em um texto chamado Desenhar é Preciso, Viver... mas gostaria de reforçar e complementar as idéias presentes no texto de 2009...
Não, eu não acho que seja preciso saber desenhar bem para estudar Arquitetura e tão pouco para ser um bom Arquiteto... é preciso saber desenhar bem para ser um bom desenhista e a Arquitetura está muito além de belos traços de grafite em uma folha de papel..
Na verdade eu nem acho que seja importante saber desenhar para estudar Arquitetura ou para ser Arquiteto... o importante é, citando Saramago, saber pensar com as mãos... isso sim é fundamental.
No livro A Caverna, o escritor português diz que além do cérebro que temos alojado no crânio desenvolvemos outros pequenos cérebros na ponta de cada um dos dedos das mãos... o cérebro da cabeça manifesta o desejo e fica esperando os cérebros das mãos fazerem o serviço... por isso pensar com as mãos.
Esse pensamento tátil não significa conseguir fazer desenhos bonitos, mas sim desenvolver o projeto utilizando a ponta dos dedos... com alguns croquis se fazem plantas e cortes esquemáticos, se estuda a forma externa, os espaços internos... o importante não é a beleza do desenho, mas a beleza com que do pensamento marca o papel... o importante é deixar as pontas dos dedos traduzirem, da maneira delas, o que a cabeça idealizou...
Todos nós podemos desenvolver essa capacidade... façam um esforço, lembrem-se das horas que -quando criança- vocês passaram desenhando e inventando estórinhas mirabolantes com canetinhas e folhas de papel... estórias cheias de personagens e de ação que sob os olhos de uma pessoa grande nada mais eram do que um monte de rabiscos, mas caso nos perguntassem o que era aquilo nós sabíamos contar exatamente que aqueles rabiscos diziam como o príncipe salvava o dragão da princesa egoísta... 
I.M. Pei; East Wing of the National Gallery of Art, Washington, D.C.
Certo que algum gaiato (às vezes acho que o meu português está ficando velho) vai dizer que os softwares atuais são poderosos e que sem eles projetos como os da Zaha Hadid, do Frank Ghery ou do Daniel Libeskind não seriam possíveis... e eu terei que concordar com isso, mas antes vou lembrar que todos estes grandes Arquitetos pensam (muito e muito bem) com as mãos antes de passar as idéias para os CADs da vida... 
Parece ser difícil para alguns estudantes e para alguns os arquitetos (principalmente os que não são old school) entenderem que a velocidade com as mãos transmitem informações para o papel é absurdamente maior do que a velocidade que o cérebro da cabeça transmite informações para um mouse... 
Usar o computador para lançar os primeiros traços de um projeto é deixar de pensar com as mãos... e fazendo isso se perde um montão de informações pelo caminho e se deixa de ter o correto desenvolvimento do raciocínio projetual... e quando falo de raciocínio projetual não estou me referindo apenas a sua geometria e/ou forma, me refiro ao completo entendimento do problema e sua devida solução, levando em conta todas as condicionantes existentes (topografia, orientação solar, tipo de solo, atendimento do programa de necessidades, fluxos e circulações, soluções tectonicas... etc... etc... etc...).
Erich Mendelsohn; Library and Office Building of Salman Schocken,
Jerusalem
Então, você que está pensando em estudar arquitetura e não sabe traçar uma linha reta... desencana, a precisão do traço é bem menos importante do que o que ele diz... e você que já estuda arquitetura ou pensa ser é arquiteto, mas não pega numa lapiseira há tempos... acho que é válido rever a maneira como você está pensando, nunca é tarde para começar ou recomeçar... 
P.S.: Ilustrando a postagem alguns exemplos de como um Arquiteto pensa com as mãos, desenhos retirados do livro Architects’ Sketches - Dialogue and Design da professora Kendra Schank Smith.


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