sexta-feira, 19 de junho de 2009

Arquitetura tamanho A4

como diria Herbert Vianna... "a nova velha forma do desastre".
Com a tarefa de buscar um material na secretaria do curso de arquitetura e urbanismo da UnB, como estou fazendo uma especialização lá no campus mesmo, aproveitei o horário após o almoço.

Cheguei um pouco adiantado, a secretaria abria às 14h, meu G-Shock marcava 13h30. Aproveitei para circular um pouco pelo ICC, o Instituto Central de Ciências, popularmente conhecido como "minhocão", pelos seus singelos 700m de extensão de uma ponta a outra. O campus da UnB é um lugar bem agradável.

Próximo a uma dessas pontas, se localiza a arquitetura. Estive lá pela primeira vez em 1994, quando ainda nem sonhava em morar em Brasília, no ENEA. Entre palestras, cervejas, festas e jogos do Brasil na copa do mundo exibidos num telão, lembro de ter participado da oficina de "maquetes processuais", ministrada pelo Fernando Lara (vejam aqui seu ótimo blog, "Parede de Meia"). Foi muito interessante, já que até então (2o. semestre do curso na UFRGS) haviam me vendido o peixe de que a maquete era para apresentação, porém aprendi ali que ela ajuda, e muito, na concepção do projeto, prática que adotei durante toda a faculdade e, algumas vezes, na vida profissional.

Voltando à FAU-UnB: Bateu aquela nostalgia dos tempos de faculdade. Pessoal animado, todas as tribos representadas, dos mauricinhos aos bicho-grilos (um garoto dedilhava a fatídica "Stairway to Heaven" num violão surrado, próximo ao centro acadêmico)... Mas, de cara, o primeiro sinal de que alguma coisa estava errada: Ninguém carregava canudos (!). Será que eu estava no lugar certo? continuei a vagar pelo vão central do minhocão, observando as salas até que resolvi entrar num ateliê que estava aberto.

Lá dentro, mesas e mais mesas de desenho... nenhum projeto pelas paredes (aliás, nem lá e nem em lugar nenhum)... e alguns alunos da arquitetura trabalhando compenetrados em seus... laptops! alguns discutiam entre si seus projetos... impressos em folhas A4! Argh!

Cadê o papel manteiga? o grafite 2b? o lado da mão sujo de grafite? lápis de cor, então... nem pensar. Se alguém perguntar pela aquarela e pelo canson... Esses tempos, parei pra pensar que apresentei meu último trabalho acadêmico totalmente desenhado à mão em 1997. Foi o P3, um conjunto de casas. Acompanhava uma maquete, modéstia à parte muito bem executada em papel escuro que se assemelhava a um eucatex, só que mais mole, e color plus preto para os vidros, com os caixilhos cirurgicamente desenhados com lápis de cor branco. Porém, em TODOS os projetos finalizados no computador, fiz questão de inserer desenhos a mão, normalmente feitos em papel manteiga e cuidadosamente escaneados para inserir nas pranchas do AutoCAD.

Então... isso tudo sumiu em 12 anos?

É difícil escrever nesse tom de desabafo para um cara que, por incrível que pareça, é um entusiasta da informática e da tecnologia. Eu mesmo me beneficiei muito dela, na faculdade e depois dela. Porém, nunca me afastei do desenho, que foi o que me levou à arquitetura.

Arquitetura sem rabisco não existe, mas infelizmente, parece que ele está sendo deixado de lado, em nome da "produtividade", ou coisa que o valha. Acho totalmente pertinente para o profissional que, com o projeto valendo cada vez menos, precisa se desdobrar para... humm... "maximizar" o seu tempo... além do mais, a computação gráfica evoluiu horrores, e é incrível o que se faz hoje em matéria de apresentações, realidade virtual e outras traquitanas. Porém, na academia é outra história. Haverá quem me chame de romântico, saudosista, quiçá retrógrado... porém, não abro mão: Pra aprender a projetar, tem que desenhar. E desenhar muito. De preferência, a grafite.

Sei que isso não acontece só na UnB. Sei, mas confesso que não quero acreditar, mas quando a gente vê a coisa "in loco", se desanima... É uma pena, mas parece que estamos assistindo à morte do desenho nas escolas de arquitetura. Minha esperança são os professores "old school". Porém, quando eles se aposentarem... aí sim, tudo estará perdido e estaremos, definitivamente, deixando de formar arquitetos para formar ótimos "cadistas".

9 comentários:

  1. Nem me fale....Estou projetando uma casa, e nada como começar desenhando tudo a mao...Nada de CAD...

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  2. nêgo, a coisa tá preeeeta... temo pela formação acadêmica e pelo "material humano" que vem por aí...

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  3. Gabriel, como professora de projeto de uma faculdade particular no interior de SP, acho que a situação só tende a piorar. Como dou aula no primeiro ano, ainda exijo que os alunos desenhem a mão. Não aceito, de maneira alguma, projetos em cad, seja para atendimentos, seja para entrega final. Eu quero croquis, mãos sujas de grafite... Mas sabe o que eles fazem (não são todos, graças a Deus)? Desenham no cad e passam a limpo no papel manteiga para me entregar. E ainda tem o descaramento de bater boca com a jovem professora aqui, dizendo que eu sou passada! Eu, com 05 anos de formada, sou passada? Acredite, tem horas que fico pensando quais profissionais colocarei no mercado de trabalho daqui 05 anos! É uma pena!

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  4. Rodrigo Makert29/06/2009 05:40

    Lendo teu texto dou graças a Deus ainda não consegui ter meu Notebook. kkkk Aqui na faculdade (UFMS) até o meio do terceiro ano soh se entregavam projetos a mão. E acredito muito que esse processo ajuda muito na concepção da idéia. Sentavamos no fundão, a galera dos note ficavam proximos as paredes. Mais preocupados CAD (que qlquer um aprende) ao inves de concentrar os esforços da discussão do projeto. Infelizmente. Nós ainda nos metemos em concursos... ae depois do processo manual reunimos nossos Pcs de mesa com monitores ainda de tubo (até ano passado) todos em um quartinho de 3x3 (3 pcs e 3 caras trabalhando). E ali varamos noites, trocamos ideias, ouvimos musica, etc. Por mais sofrivel, eh gostoso. rs E começa a dar resultados. Aeee, ganhamos a Menção Honrosa no Prêmio CAIXA-IAB estudantil (com nome Gabriel de Lima Gonçalves). E acho que devemos agradecer muito ao lapis por isso (msm sem abandonar a tecnologia). Abraço. Legal o texto.

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  5. Concordo plenamente com teu ponto de vista e a revolta. Não acho que todos os arquitetos tenham que ser dsenhistas exímios, porem a nocao basica o desenho, do croqui na criacao de uma ideia, sao fatores essencais a cocepcao de um projeto. é o momento do sentimento na criacao, em que vc imagina tudo através de um rabisco... acho q a insercao da tecnologia tem seus dois lado... ajuda... mas tbm atrapalha!

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  6. Oi, Gabriel! Esse assunto me interessa muito. Acho que o problema do CAD (qualquer um deles) é que a gente gasta tempo pensando no comando que vai dar, nas medidas, no ângulo, em salvar... ou seja, não é tão direto como é fazer um croqui à mão: gastar tempo rabiscando, rabiscando, até que sai uma idéia. Acho que o desenho à mão deixa a mente mais relaxada, mais concentrada só no assunto do projeto, mesmo. No fundo é isso: eu acho que o computador dispersa um pouco; a atenção da gente fica dividida entre a manipulação da máquina e o projeto em si.
    Mas acho que proibir o uso dos programas de CAD ou romantizar o desenho à mão também não é produtivo. O programa está aí, todo mundo tem curiosidade, e proibir só faz os alunos irem com mais voracidade até ele. Acho que o que tem que ser feito é estimular o desenho, para que cada um possa encontrar o seu caminho. Já tive alunos que resolviam projeto super bem no computador e aqueles que faziam coisas péssimas à mão, bem como o inverso. Para mim, cada um tem que se encontrar, descobrir a forma melhor de se expressar; e isso se consegue estimulando que os alunos (principalmente do primeiro ano) tenham acesso a todas as mídias possíveis.

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  7. O desenho é fundamental na nossa profissão! Também sou entusiasta da tecnologia mas, como você, defendo que nunca deixemos de lado os nossos caderninhos de desenho e uma boa lapiseira (canetinhas, lápis de cor e tudo mais!).

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  8. Tchê Gabrielito, essa discussão vem desde o tempo da faculdade... desde as nossas conversas de terça no Acústico (ou seriam de quinta? ou seriam de terça e quinta?).

    Tu sabes que eu sou um arquiteto romântico, daqueles que viajam com um Moleskine na mochila. Hoje trabalho basicamente com projeto de edificação e na minha mesa tem nesse momento um projeto em andamento... presta atenção, na minha mesa e não no meu computador... e tenho aqui papel manteiga, lapiseira 0,9 e 0,5, lápis de cor e um escalímetro para às vezes conferir se os rabiscos não estão muito destorcidos...

    Depois do manteigão ele vai para o computador e ganha sua real escala, proporção e até uma maquete eletrônica para apresentação, já que não desenho como o Arigoni para poder apresentar para o cliente os rabiscos.

    Algumas vezes ainda rola uma maquete física volumétrica, coisa de 3 ou 4 horas de trabalho para ter certeza do que estou fazendo... (embora às vezes tenha vergonha de dizer isso, porque a última vez que falei isso para uma arquiteta bem antiga aqui de Caxias ela me chamou de ultrapassado... imagina, no escritório dela se faz 3D há muito tempo, pra que maquete física?)

    A questão é a seguinte, um projeto é a transposição das idéias para algum meio físico que depois possa ser materializado em obra... e essa gurizada não se dá conta que a dupla papel e lapiseira é muito mais rápida do que qualquer mouse, não se dão conta que o mouse limita as possibilidades.... e como fazer para mostrar isso para os alunos?

    Como mostrar pra eles que é melhor eles sujarem as mãos de grafite e terem uma porção de rabiscos com bom potencial do que pegar um mouse e ter uma bela perspectiva de um projeto medíocre?

    Concordo com a Renata que proibir o CAD ou romantizar o desenho à mão não são bons caminhos, mas também acho que começar um projeto no CAD é algo muito complicado e limitador...

    E pra complicar ainda mais, será que todos os professores de projeto percebem que o CAD é limitador? Será que nos seus próprios escritórios ainda lançam os seus projetos à mão? Será que aqueles que usam arquitetos como o Gehry, o Libeskind, a Zaha como exemplo da importância do CAD para a arquitetura já viram os croquis conceituais dos mesmo?

    É Gabrielito, não acho que estejamos ficando velhos... acho que estamos nos tornando clássicos.

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  9. Eu fico feliz de ver que não estou sozinho... mais feliz ainda de ver que não estou maluco! heheh.
    Realmente, não se trata de "romantizar" o "processo produtivo" (horrível essa... argh!) do arquiteto, muito menos de demonizar a tecnologia, que tanto tem feito pela arquitetura lá no canteiro de obras, fazendo surgir maravilhas. Mas é preciso achar um ponto de equilíbrio. Há um mínimo de poesia necessária em se fazer um projeto, por menor e mais simples que ele seja.

    Do contrário... pra quê arquiteto? chuta o balde e chama logo o engenheiro.

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